Logomarca Sinmetal

Notícias destaques

Investimento deve aumentar 6% este ano, diz Giambiagi

09/01/2018 | Valor Econômico


Em um contexto de estabilidade política e econômica, o investimento deve voltar a ajudar a alavancar o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) nos próximos anos, diz o economista-chefe do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Fabio Giambiagi.

O banco, cujo papel central é induzir o investimento, trabalha com um cenário-base de crescimento de 6% para a Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF) — medida do que se investe em máquinas, equipamentos, construção civil e inovação — em 2018. “Olhamos para o futuro com um otimismo cauteloso”, disse Giambiagi, em entrevista ao Valor.

Apesar de no período janeiro/novembro de 2017 as consultas, aprovações e desembolsos — indicadores de investimento no BNDES — ainda mostrarem queda, Giambiagi disse que é preciso olhar os números com “lupa”.

Ao desagregá-los, afirma, é possível ver um crescimento de 26% no valor das aprovações do Finem, que responde pelas operações diretas, o “coração” do banco; e de 22% na Finame, a linha que financia máquinas e equipamentos. Em 2017, os desembolsos do BNDES responderam por cerca de 7% da FBCF. A seguir, os principais trechos da entrevista:

Valor: No começo de dezembro, o IBGE mostrou, nos dados do PIB, que a Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF) subiu 1,6% no 3o trimestre ante o 2o trimestre de 2017. A taxa de investimento foi de 16,1% no terceiro trimestre. Como o BNDES avalia a evolução do investimento na economia brasileira ao longo de 2018?

Fabio Giambiagi: É importante dar uma dimensão bem precisa do processo do qual estamos tratando. No caso do PIB, entre o quarto trimestre de 2014 e o quarto de 2016 o PIB trimestral dessazonalizado encolheu nada menos que 8%. Já no caso do investimento, a queda foi mais longa e mais intensa: a retração se iniciou ainda no fim de 2013 e, entre o terceiro trimestre de 2013 e o primeiro de 2017, a redução acumulada foi de espantosos 29%. Depois de um processo desse tipo, é até certo ponto natural que num primeiro momento, antes de construir novos galpões, se ocupe aquilo que deixou de ser utilizado na crise. E que crise! Essa dinâmica explica em parte o que está acontecendo com a construção civil, fenômeno também evidentemente associado à retração relacionada com as empresas envolvidas na Lava-Jato. De qualquer forma, dentro de um ambiente ainda complexo, quero chamar a atenção para o que vem acontecendo com a indústria de bens de capital, que está se recuperando a uma boa velocidade.

Valor: Quais são os números?

Giambiagi: Se olharmos para o gráfico com ajuste sazonal, vemos uma curva clara de melhora nos últimos meses, a ponto da comparação dos três meses de setembro a novembro em relação aos mesmos meses de 2016 exibir um crescimento desse segmento de nada menos que 10 %, sendo que o fato de tomar uma média de três meses indica que não se trata de algo meramente pontual. Em relação a 2018, a expressão que venho usando desde o fim de 2016 é que estamos olhando para o futuro com otimismo cauteloso e, em relação a um ano atrás, diria que hoje estou um pouquinho mais otimista e um pouquinho menos cauteloso.

Valor: Por quê?

Giambiagi: De um modo geral, a evolução da macroeconomia em 2017 foi positiva e nós temos visto alguns processos se firmando. A economia tem se mostrado bastante resiliente, mesmo em um contexto de ambiente político conturbado. Para 2018, vemos o investimento continuando a se recuperar paulatinamente, com uma velocidade e intensidade que naturalmente dependerão em parte dos sinais emanados da esfera política. Quanto mais perspectivas houver de que a política econômica de 2019 será parecida com a de 2018, maior será a confiança para colocar o pé no acelerador dos projetos. Nosso cenário-base é de um crescimento de 6% para a Formação Bruta de Capital Fixo [FBCF] em 2018.

Valor: O que sustentará esses 6% de crescimento no investimento?

Giambiagi: A curto prazo há duas forças que atuam em sentidos opostos. Por um lado, depois de anos de recessão, tem capacidade ociosa que tende a conspirar contra o investimento uma vez que, em muitas empresas, a prioridade é ocupar galpões já disponíveis. Por outro, olhando para frente, depois de alguns anos de recessão, há setores, como as indústrias associadas à tecnológica da informação [TI], cujos equipamentos ficaram obsoletos. Se não age rapidamente, em função da pressão da concorrência, perde ‘market share’ [participação de mercado]. Então temos hoje um início de retomada, partindo de uma contração violenta do investimento nos últimos anos. E estamos falando dessa perspectiva de crescimento [para a FBCF] que é o dobro da taxa de crescimento [prevista] do PIB, mas que fica aquém de crescimentos observados em outras ocasiões de recuperação cíclica com forte crescimento inicial do investimento. É algo animador, mas não é nada que não tenha sido observado no passado.

Valor: E nos próximos anos?

Giambiagi: É claro que isso dependerá das diretrizes que forem definidas em 2019 para os rumos do país nos anos posteriores. E não só dos rumos. Muito dependerá do relacionamento entre o Executivo e o Legislativo e do apoio que existir para o Executivo. Se você olhar os números trimestre a trimestre, a trajetória ao longo de 2015 foi impressionante: tudo estava em queda livre: PIB, investimento e consumo. Por quê? Porque o ambiente que se vivia era caótico: um ministro da Fazenda atacado pelo partido da presidente da República, Executivo e Legislativo em guerra aberta etc. Foram os tempos negros da famosa pauta-bomba congressual. Era um espetáculo que lembrava o filme "Apocalipse Now", com o título que se aplicava àquela situação e a frase famosa repetida pelo personagem que repete, diante do inimaginável: "o horror, o horror". Por isso, eu venho dizendo que, mais importante do que saber quem será o ministro da Fazenda do próximo presidente da República, será saber quem será o ministro encarregado de fazer a ponte com o Congresso. Essa arte não é para amadores, e se o próximo presidente não souber operar com maestria nesse ambiente, o risco de repetir 2015 existe. Por outro lado, em ambiente de harmonia entre Executivo e Legislativo e estabilidade olhando quatro anos à frente, poderemos ter um período de governo excelente, com confiança, contas públicas progressivamente melhores, juros baixos e inflação sob controle. A variável principal para que tenhamos, eventualmente, até um ‘boom’ de investimento de 2019 em diante é a percepção de ‘ter chão’ pela frente. Tem muita gente com tudo engatilhado para deslanchar processos de investimento. Alguns, pela situação da concorrência, estão se aventurando em 2018. E esse panorama, potencialmente, poderá ficar mais claro em 2019.

Valor: É possível pensar em um aumento do investimento em relação ao PIB como cenário futuro?

Giambiagi: Sem dúvida. Eu diria que, desde que haja um bom entendimento entre Executivo e Legislativo e um presidente da República que seja inspirador, agregador e articulado, tomando a expressão que escutei outro dia de um amigo do setor financeiro, com um diagnóstico correto da situação e um plano de voo que faça sentido, o cenário estará armado para termos quatro anos de uma belíssima trajetória do investimento. No caso da infraestrutura, porque depois de oito anos de confusão e incerteza, poderemos ter regras claras e um ambiente pró-negócios. No caso das empresas não ligadas à infraestrutura, o esgotamento gradual da capacidade ociosa fará com que chegue a hora de investir. E no caso das famílias, com a renda crescendo e o desemprego em queda, as pessoas vão voltar a pensar em comprar casa própria, passar de quarto para dois, ou de dois para três e, enfim, as engrenagens enferrujadas vão voltar a se movimentar.

Valor: Um dado que chamou a atenção na divulgação do PIB é o fato de os números do IBGE indicarem uma recuperação no investimento, enquanto as consultas e enquadramentos no BNDES até novembro ainda mostrarem queda. Como explica a diferença? É pelo fato de as consultas ao BNDES não refletirem o investimento geral na economia, mas somente o investimento que considera bens e equipamentos nacionais financiados via Finame? Essa é uma explicação possível?

Giambiagi: Vou repetir a imagem surrada de que isso aqui [o BNDES] é um transatlântico. O deslocamento que ocorre em certo momento é resultado de uma guinada que ocorreu muito tempo atrás. Nós não podemos criar desembolsos do nada. Para que tenha um desembolso em 2017, é necessário que o projeto tenha sido aprovado antes e para isso é preciso que, por sua vez, antes disso tenha havido um enquadramento. É uma história longa, que se inicia na fase embrionária da consulta. E o fato é que em 2017 nós simplesmente não tínhamos carteira constituída para poder aspirar a um grande volume de desembolsos.

Valor: Há outra explicação?

Giambiagi: Dito isso, há outra coisa a ser dita: em 2017, houve duas tendências muito negativas, representadas pela queda do Cartão BNDES [que deixou de ser operado pelo Banco do Brasil] e pelo encolhimento muito grande das operações de apoio à exportação. Tirando isso, o resto até que tem evoluído razoavelmente. Finalmente, um terceiro elemento que é preciso enfatizar é olhar para o que acontece antes do desembolso e, nesse sentido, quero destacar que no acumulado do ano até novembro nós tivemos um crescimento de 26% do valor das aprovações do Finem [operações diretas], que é de certa forma o "coração" do banco, e uma expansão de 22 % do BNDES [nas aprovações] da Finame, que mostra mais rapidamente o pulso da economia. São dados promissores para o futuro.

Valor: Como prevê o cenário de demanda sobre o BNDES para 2018 considerando a recuperação da economia e o fato de o banco estar operando com a TLP? O BNDES continuará atrativo para as empresas financiarem seus investimentos?

Giambiagi: Quero chamar a atenção para um dado. Em 2017, tivemos uma TJLP média no ano em torno de 7,1% e uma inflação que talvez feche em 2,9%, ou seja, uma TJLP real de mais de 4%. Em 2018, teremos uma TLP real que começará sendo de 2,7 %. Consequentemente, ela irá cair em relação ao ano passado. Com a vantagem de quem contratar o empréstimo terá a garantia de que a taxa real será dada por todo o contrato e não acontecerá mais a esquizofrenia dos últimos anos, quando a TJLP real oscilou entre menos 4% e mais 4%, dificultando dramaticamente o cálculo econômico, uma vez que o tomador não sabia exatamente que produto estava comprando. Se previsibilidade é o nome do jogo, nada mais previsível do que a TLP. Uma vez que ela for contratada, a incerteza associada ao seu valor futuro para o tomador será zero. Por outro lado, sou realista e imagino que é razoável que em 2018 haja algum período inicial de aprendizado no qual teremos que arregaçar as mangas e explicar bem como funcionará o banco com as novas regras, especialmente junto às pequenas e médias empresas, cujo grau de informação é menor. Em curto prazo, então, teremos as dificuldades iniciais de toda mudança e o aumento da demanda associado à melhoria do investimento. Passada a transição, depois de alguns meses, espero que só o segundo vetor esteja agindo.

Valor: O que precisa acontecer para que o investimento seja sustentável a médio e longo prazo?

Giambiagi: Precisa ter estabilidade macroeconômica e juros baixos, não artificialmente baixos como de 2012 e 2013, mas sim um movimento de juros reais e duradouros, que é algo que começa a frequentar as con- versas dos economistas. No passado, sempre que o mercado olhava uma situação de juros conjunturalmente baixos, e projetava o futuro, voltava a juros elevados. Lembro-me de um economista que, em 2004 e 2005, entendia que o Banco Central nunca iria deixar o Brasil ter juros reais duradouros de menos de 8% ao ano. Isso está sepultado, ninguém visualiza algo assim. Pode ser, eventualmente, que a Selic suba um pouco, mas nos cenários contemplados ninguém vislumbra a Selic voltando a 14% ao ano. Estamos falando de um quadro em que podemos ter ainda um ponto de interrogação, mas há um conjunto de elementos que se somam para ter juros estruturalmente baixos, sujeito, é claro, ao ‘teste do pudim’ da realidade de 2019. Estamos falando de cenário de continuidade da política atual, de aprovação das reformas, de um quadro que torne viável a manutenção do teto real do gasto público.

Valor: Como o sr. vê o Brasil no contexto regional?

Giambiagi: É um ponto interessante. Há um potencial muito grande para o Brasil voltar a ser a grande referência regional. Estive recentemente alguns dias na Argentina. O presidente [Maurício] Macri está operando com grande habilidade política, mas o fato é que eles [os argentinos] estão começando um processo de crescimento já na largada com déficit em conta corrente de mais de 4 % do PIB e um déficit público parecido com o nosso, mas com inflação de 25% e o Banco Central muito questionado, contrariamente ao nosso, que tem dado um show de competência. O Chile tem sido um exemplo, mas é um país pequeno. O México nunca acaba de engatar a terceira marcha em matéria de crescimento. De modo que, se fizermos nosso dever de casa bem feito, o país poderá voltar a ter um papel de liderança na região, como nos anos da Presidência de FHC [Fernando Henrique Cardoso] e do presidente Lula [Luiz Inácio Lula da Silva].

Valor: O sr. parece otimista.

Giambiagi: Em 2017, completei 30 anos desde que comecei a incursionar na temática fiscal, em 1987. Fui o segundo redator da seção de política fiscal do Boletim de Conjuntura do Ipea [Instituto de Política Econômica Aplicada]. A colega que escreveu para o número 1 se aposentou e eu fui então do alto dos meus 25 anos meter a cara no tema. E em função disso logo, logo acabei trabalhando com cenários. Pensando cinco a dez anos à frente, confesso que nunca vi um quadro de narrativas possíveis de médio e longo prazo tão contrastante quanto as que podem ser contadas agora. Eu posso desenvolver para você uma história do futuro que fale de um desastre completo, reeditando alguns de nossos velhos fantasmas como uma inflação alta ou altíssima, ou o calote da dívida, porque, obviamente, com um déficit de 8% a 9% do PIB, se não houver ajuste, será preciso começar a pensar no impensável, como disse uma vez a “The Economist”. O termo foi usado [pela revista] quando a conversibilidade de Domingo Cavallo [ex-ministro da Economia da Argentina] começou a fazer água, e eles falaram em "think about the unthinkable". Por outro lado, um governo que conserve a rota reformista e mantenha a inflação sob controle e o comando da agenda legislativa terá tudo para comandar o que um ex-presidente chamou do espetáculo do crescimento, com música de fundo. Antes, olhando cinco anos para frente, eu dizia que o cenário A era de crescimento de 2,5% e o cenário B, de 4,5%, ou o cenário A de crescimento de 1,5%, e o B, de 3,5% ao ano. Agora, quando penso no Brasil de quando eu tiver 65 anos, hoje tenho 55, vejo ora o céu ora o inferno. Em um caso, com novas reformas, o Brasil no qual a geração de nossos filhos irá viver será melhor que o país que nos tocou. No outro, sem reformas, com estagnação e dívida explosiva, só nos restará dançar um tango argentino. Posso responder à sua pergunta em janeiro de 2019? Será mais fácil.

Confira a notícia na íntegra.

O SINMETAL não é responsável pelas notícias aqui transcritas, são apenas reproduções da mídia.

Filiado ao Sistema FIRJAN
Associe-se ao Sinmetal