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Inflação baixa demais

25/09/2017 | O Globo


A profunda recessão pela qual a economia brasileira passou nos últimos três anos e um resultado excepcionalmente bom da safra agrícola levaram o país a uma situação incomum. A inflação está tão baixa que o Banco Central (BC) indicou, em seu último relatório de acompanhamento dos preços, que, a partir de agora, adotará uma política de juros “estimulativa”, ou seja, que visa a estimular a economia.

Nos últimos 12 meses, o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA, usado nas metas de inflação do governo) acumula alta de 2,46%. E as estimativas são de que a taxa ficará abaixo de 3% este ano, ou seja, inferior ao piso da meta de inflação — algo inédito desde que o regime de metas foi implantado no país, em 1999.

“O Copom (Comitê de Politica Monetária) entende que a conjuntura econômica prescreve política monetária estimulativa, ou seja, com taxas de juros abaixo da taxa estrutural”, informou o BC no seu relatório trimestral de inflação, divulgado ontem.

Ou seja, a autoridade monetária avalia que a taxa básica de juros — usada para controlar a inflação, porque, quanto mais alta, mais caro fica o crédito e menor o consumo —, atualmente em 8,25% ao ano, deverá ficar num patamar abaixo do considerado neutro, que é aquele que nem estimula a atividade econômica nem segura a alta de preços.

E, entre os analistas do mercado, a previsão é que a inflação não supere a meta de 4,5% pelo menos até 2020. A indexação, que antes dificultava o controle da inflação ao levar para o futuro a alta de preços passada, agora vai jogar a favor, mantendo a inflação mais baixa. Além disso, há ociosidade na economia, tanto no mercado de trabalho como na indústria, comércio e serviços. Isso vai permitir, então, que o país cresça sem que os preços subam além da conta, segundo Elson Teles, economista do Itaú Unibanco. Teles hoje prevê IPCA em 3% no fim do ano, mas deve rever a estimativa para baixo:

— A folga é grande, o hiato do produto (expansão abaixo do que o país é capaz de crescer) está alto, consistente com a inflação na meta.

A probabilidade de a inflação ficar abaixo do limite de tolerância (menos que 3%) é grande: 36%. Se isso acontecer, o Banco Central terá de escrever uma carta pública para explicar o porquê de não ter cumprido o objetivo.

— Esperamos inflação de 2,9%, provavelmente obrigando o BC à tarefa incômoda de escrever carta endereçada ao ministro da Fazenda para explicar o desvio — disse Tony Volpon, ex-diretor do BC.

RISCOS POLÍTICOS E FISCAIS

As turbulências políticas não têm afetado os preços, por meio da alta do dólar, que tem se mantido perto de R$ 3,15, ajudado por uma condição externa favorável. Mas, dependendo do andamento das eleições no ano que vem, esse fluxo pode mudar, diz Luiz Roberto Cunha, professor da PUC-Rio. Outro risco no horizonte, cita Cunha, é a situação das contas públicas, que está longe de estar resolvida. A reforma da Previdência não anda, e o governo está contando com receitas extraordinárias para cumprir a meta de déficit fiscal de R$ 159 bilhões para este ano, fazendo a dívida pública subir.

Segundo Cunha, explicar que a inflação foi maior que a meta é mais fácil. Um choque de oferta explica o comportamento:

— Mas inflação abaixo da média pode fazer o BC ter que admitir que demorou a baixar juros.

Após dois anos de recessão, o BC começou a reduzir, em outubro de 2016, a Taxa Selic, que estava em 14,25%. No relatório divulgado ontem, o BC reviu também suas projeções para o crescimento do PIB (Produto Interno Bruto), passando de 0,5% para 0,7% em 2017. Para o ano que vem, espera que o Brasil cresça 2,2%.

A questão é se esse índice baixo de inflação se sustenta nos próximos anos, juntamente com os juros baixos, diante da reação do PIB, estimulada por esse patamar das taxas. Há um consenso de que o Brasil não vive o fenômeno dos países desenvolvidos, como os Estados Unidos e os da Europa, de recuperação econômica sem que a inflação atinja as metas fixadas pelos bancos centrais, situação citada anteontem pela presidente do Fed (Federal Reserve, banco central americano), Janet Yellen, como difícil de entender.

No Brasil, a inflação baixa explica-se pelos preços dos alimentos e a recessão, que fez os serviços baratearem antes do que se esperava. Os preços caíram em média 5,19%, contra IPCA de 2,46%. A inflação anual dos serviços caiu de 7,04% em setembro de 2016 para 4,81% em agosto deste ano.

— O choque de alimentos foi muito forte. Tudo ajudou: clima, safra, preços internacionais. Isso levou o BC a errar para cima a inflação projetada desde outubro do ano passado. E vai errar de novo em setembro. Está prevendo 0,17%, e o mês deve fechar em 0,11%. O mercado também errou — comentou Luiz Roberto Cunha.

O diretor de Política Econômica do BC, Carlos Viana, disse que a queda dos preço dos alimentos foi mais forte do que poderia prever o governo. Esse efeito interferiu até nas perspectivas para o ano que vem, que passaram de 4,5% para 4,3%.

— A queda da inflação é algo que as pessoas sentem no bolso. Saindo para fazer compras no supermercado ou no lazer, você sente que o salário está com poder maior. Você começa a ver notícias melhores. O dia a dia vai mostrar essa melhoria da economia na vida das pessoas — afirmou o diretor.

Um ponto, porém, mudou a estrutura do controle de preços: a credibilidade do Banco Central.

— O BC resgatou a credibilidade do regime de metas, que tem papel importante para explicar o comportamento da inflação, trazendo as expectativas sobre os índices de preços para dentro da meta — afirmou o economista Paulo Levy, do Ipea.

Confira a notícia na íntegra.

O SINMETAL não é responsável pelas notícias aqui transcritas, são apenas reproduções da mídia.

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